Prefácio – Dia 00.
Nesse espaço
passarei a contar a minha vivencia como pai de um menino autista, não terei a
mínima intenção de vitimizar meu filho, apenas compartilha minhas alegrias,
frustrações, medos e expectativas com os que se interessarem, não quero que
ninguém olhe pro meu pequeno guerreiro e tenha pena, não tratarei aqui de diminuir
suas capacidades ate porque elas não são diminuídas pelo autismo, tentarei explicar na visão de um pai e ou colunista aquilo que a medicina não pode
explicar, não por incompetência, mas pelo abismo que ainda existe sobre o
assunto no campo da ciência.
Organizarei essa coluna por "Dias", os acontecimentos que neles aconteceram, mas não
necessariamente estarão em ordem cronológica, porem tentarei não bagunçar as
informações e terei o cuidado para ambienta-los adequadamente no cenário em que
a narração ocorreu.
Explico
ainda que minhas experiências podem ser extremamente particulares até por que o
autista é um individuo único, não são padronizados, talvez as coisas que eu
relate aqui um outro pai de autista pode ler e não se identificar, o universo
autista é enorme e cheio de características próprias que a maioria das pessoas
simplesmente é incapaz de notar, perdi a conta de quantas vezes me indagaram se
meu pequenino era mesmo autista.
Não vou
entrar aqui na velha discussão de que o autista vive em um mundo diferente e só
dele, pois isso é uma falacia, uma explicação simplória que não reflete a
realidade de um autista e que se propagou pela dificuldade das pessoas
entenderem ou tentar entender o autismo, eles vivem no mesmo mundo que a gente,
não são esquizofrênicos, com o perdão da palavra a aqueles que sofrem desse
outro distúrbio, mas fato é que o autista vê, ouve e sente exatamente o que nós
vemos, ouvimos e sentimos o que muda é apenas a percepção desses eventos, uma
coisa tão simples como uma roda de carro girando pode ser extremamente
encantador para um autista enquanto um gol da final da copa do mundo nos 45
minutos do segundo tempo pode ser um evento tão trivial e sem emoção para eles
que não ligaram para o acontecimento.
Quando as
pessoas me perguntão o que meu filho faz na qualidade de autista, eu sinto que
eles esperam que eu descreva um louco, alguém que não é e não sera capaz de
cuidar de si mesmo ou que representa algum tipo de risco a sociedade, um
autista por maior que seja a sua necessidade de auxilio não difere em atitudes
de nós, os ditos normais, eles amam, ficam tristes, enraivecidos, ansiosos,
contentes e tantas outras emoções, apenas a forma de expressão é que muda, um
autista pode simplesmente entender que não precisa falar, logo não falará até
entender que necessita, eles não são mais ou menos inteligentes, eles são tão
humanos quanto nós o que talvez demonstre essa inteligencia superior que alguns
gostam de citar pode ser o fato de que normalmente eles tem alguma fixação,
algo que os atrai e os move, no caso do meu filho são os carros, tudo que
envolve um carro o atrai desde a cor até o ronco do motor que tanto gosta de
imitar, também há a compreensão literal das coisas que é uma característica bem comum entre eles
e que acaba contribuindo para um aprendizado mais amplo em algumas áreas.
O autista
em si pode ter varias necessidades e sensibilidades especiais a cada um deles,
ele pode ser ou não sensível ao barulho, ao toque, a um determinado cheiro e
isso os incomodará profundamente, um
autista pode ou não ter necessidades de auxilio como na comunicação e ou na
locomoção, entre outras, mas há uma coisa que todos possuem, é a dificuldade de
compreender as ciências sociais, alguns acabam se desenvolvendo e talvez você até
duvide de seu diagnóstico de autista, mas não pense que é fácil pra eles,
entender questões como privacidade, distância e espaços particulares, volume adequado
da voz, mentirinhas sociais que nós usamos no dia a dia para não ofender as
pessoas, coisas que para nós são comuns e corriqueiras para eles são questões
muito controversas e difíceis de compreender, eles também são muito
transparentes e algumas pessoas podem confundir isso com falta de educação, mas
há uma outra coisa que eles também são universais, o amor e o afeto, não
conheci nenhum autista até hoje que não seja afetuoso e carinhoso com os que
são próximos a eles e é desse amor que também falarei aqui como protagonista
dessa coluna.
Nada é mais
importante do que amor e respeito.



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