18/10/2018

Dias de Um Pai de Autista, Prefácio – Dia 00.


Prefácio – Dia 00.


Nesse espaço passarei a contar a minha vivencia como pai de um menino autista, não terei a mínima intenção de vitimizar meu filho, apenas compartilha minhas alegrias, frustrações, medos e expectativas com os que se interessarem, não quero que ninguém olhe pro meu pequeno guerreiro e tenha pena, não tratarei aqui de diminuir suas capacidades ate porque elas não são diminuídas pelo autismo, tentarei explicar na visão de um pai e ou colunista aquilo que a medicina não pode explicar, não por incompetência, mas pelo abismo que ainda existe sobre o assunto no campo da ciência.

Organizarei essa coluna por "Dias", os acontecimentos que neles aconteceram, mas não necessariamente estarão em ordem cronológica, porem tentarei não bagunçar as informações e terei o cuidado para ambienta-los adequadamente no cenário em que a narração ocorreu.


Explico ainda que minhas experiências podem ser extremamente particulares até por que o autista é um individuo único, não são padronizados, talvez as coisas que eu relate aqui um outro pai de autista pode ler e não se identificar, o universo autista é enorme e cheio de características próprias que a maioria das pessoas simplesmente é incapaz de notar, perdi a conta de quantas vezes me indagaram se meu pequenino era mesmo autista.


Não vou entrar aqui na velha discussão de que o autista vive em um mundo diferente e só dele, pois isso é uma falacia, uma explicação simplória que não reflete a realidade de um autista e que se propagou pela dificuldade das pessoas entenderem ou tentar entender o autismo, eles vivem no mesmo mundo que a gente, não são esquizofrênicos, com o perdão da palavra a aqueles que sofrem desse outro distúrbio, mas fato é que o autista vê, ouve e sente exatamente o que nós vemos, ouvimos e sentimos o que muda é apenas a percepção desses eventos, uma coisa tão simples como uma roda de carro girando pode ser extremamente encantador para um autista enquanto um gol da final da copa do mundo nos 45 minutos do segundo tempo pode ser um evento tão trivial e sem emoção para eles que não ligaram para o acontecimento.


Quando as pessoas me perguntão o que meu filho faz na qualidade de autista, eu sinto que eles esperam que eu descreva um louco, alguém que não é e não sera capaz de cuidar de si mesmo ou que representa algum tipo de risco a sociedade, um autista por maior que seja a sua necessidade de auxilio não difere em atitudes de nós, os ditos normais, eles amam, ficam tristes, enraivecidos, ansiosos, contentes e tantas outras emoções, apenas a forma de expressão é que muda, um autista pode simplesmente entender que não precisa falar, logo não falará até entender que necessita, eles não são mais ou menos inteligentes, eles são tão humanos quanto nós o que talvez demonstre essa inteligencia superior que alguns gostam de citar pode ser o fato de que normalmente eles tem alguma fixação, algo que os atrai e os move, no caso do meu filho são os carros, tudo que envolve um carro o atrai desde a cor até o ronco do motor que tanto gosta de imitar, também há a compreensão literal das coisas que é uma característica bem comum entre eles e que acaba contribuindo para um aprendizado mais amplo em algumas áreas.


O autista em si pode ter varias necessidades e sensibilidades especiais a cada um deles, ele pode ser ou não sensível ao barulho, ao toque, a um determinado cheiro e isso  os incomodará profundamente, um autista pode ou não ter necessidades de auxilio como na comunicação e ou na locomoção, entre outras, mas há uma coisa que todos possuem, é a dificuldade de compreender as ciências sociais, alguns acabam se desenvolvendo e talvez você até duvide de seu diagnóstico de autista, mas não pense que é fácil pra eles, entender questões como privacidade, distância e espaços particulares, volume adequado da voz, mentirinhas sociais que nós usamos no dia a dia para não ofender as pessoas, coisas que para nós são comuns e corriqueiras para eles são questões muito controversas e difíceis de compreender, eles também são muito transparentes e algumas pessoas podem confundir isso com falta de educação, mas há uma outra coisa que eles também são universais, o amor e o afeto, não conheci nenhum autista até hoje que não seja afetuoso e carinhoso com os que são próximos a eles e é desse amor que também falarei aqui como protagonista dessa coluna.


Nada é mais importante do que amor e respeito.

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